Por que fazer psicoterapia?

Fazer terapia é sem dúvida uma aventura, repleta de descobertas, medos, contrução em reconstrução de significados, é uma aventura pessoal capaz de nos reconciliar, de modo duradouro, com a nossa própria história.

Em um dos meus atendimentos uma paciente relatou-me como conseguia perceber o quanto estava a reconstruir-se na terapia, o quanto agora conseguia perceber a sua estrutura primária, o quanto alimentava o caos na sua vida e tentava de uma forma inconsciente buscar alimentar o seu sintoma.

Porque o sintoma estrutural é mesmo assim, não queremos viver uma determinada situação, mas acabamos por fazer escolhas que nos colocam exatamente naquele mesmo lugar, outra vez, e outra e outra, repetidamente… até o momento em que conseguimos tornar consciente esse processo e reconstruir nossa própria história.

Então, eu disse-lhe “a tua estrutura continua lá, é a base da tua personalidade, mas já não comanda as tuas escolhas porque a reconstrução de si faz com que agora queiras te colocar em outros lugares, lugares em que ocupar aquele espaço não te cobre o custo do caos”.

Ela sorri e me diz: “é por isso que eu faço terapia”!

E é nesse lugar que a Psicanálise acontece, na relação com o este Outro (encarnado na figura do terapeuta) e com o estabelecimento do laço transferencial é que, de facto, as mudanças passam a acontecer.

Angústia – O que ela sinaliza?

Vivemos na era do esvaziamento de sentido e da recusa em ouvir a nossa angústia!

Há uma necessidade constante de anestesiá-la, seja através da poderosa indústria farmacêutica, seja com consumos dos mais variados, compras, álcool, drogas, trabalho excessivo, ruminações, pensamento acelerado, música, imagem…

Há diferentes formas para recusar ouvir o que a angústia quer nos dizer e anestesiá-la é a ferramenta mais comum da sociedade contemporânea.

“A angústia é o único afeto que não mente”, como dizia Lacan.

Onde ela aparece, onde há o sinal da angústia há uma verdade investida do seu desejo mais radical, duma posição de existência. A angústia aparece no ponto da insuportabilidade do seu desejo e no medo radical de esvaziamento do seu ser, no medo de não existir, de desaparecer.

Mas eu convoco-te a sustentar este momento. Sustenta a angústia, pois é só quando você perde-se de si próprio que pode surgir o radicalmente novo de quem você é, do que é o seu verdadeiro desejo.

Quando abrimos espaço, o espaço para a angústia, para o esvaziamento do nosso próprio ser, é quando possibilitamos que algo novo possa surgir e ocupar aquele lugar deixado pelo espaço de abertura da angústia.

Sustentar a angústia não é fácil, não são todos os dias que a gente consegue, mas quando ela aparecer, não recue, se permita ser um estrangeiro dentro de si, espere, sinta e deixe passar, não precisa ceder para nenhum tipo de anestesia.

Aceitar a radicalidade do não sentido da angústia poderá revelar um outro sentido que você pode estar preparado para descobrir e que vai te levar a uma nova versão sua!!!