Vida a Dois: As discussões que afastam e como as transformar

As discussões não precisam ser encaradas como um problema, elas podem ser a via de resolução de situações desconfortáveis, desde que sejam conduzidas com respeito e empatia.

O verdadeiro risco não está no que falamos, mas na forma como comunicamos o que nos magoa.

Na terapia de casal, falamos muitas vezes dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, ou seja, padrões de comunicação que, quando recorrentes, fragilizam a relação ao invés de propiciar a resolução do conflito.

O primeiro cavaleiro do apocalipse é a Crítica:

A crítica surge quando atacamos a personalidade do parceiro, em vez de expressarmos as nossas necessidades e sentimentos.

É diferente dizer: “És sempre desorganizado e não me ajudas em nada” (ataque pessoal), de dizer: “Eu sinto-me desvalorizada quando não tenho ajuda na organização da casa” (expressão do sentimento perante a situação).

Comunicar a partir da própria experiência emocional favorece a compreensão e reduz a escalada de conflito.

O segundo cavaleiro é a Defensividade:

A defensividade manifesta-se quando respondemos com justificações automáticas, sem realmente escutar o outro.

Antes mesmo de compreender o que o parceiro está a sentir, surge o impulso de dizer: “Eu não fiz nada” ou “Eu fiz isso porque…”.

Cada vez mais, ouvimos para responder, e não escutamos para compreender.
A escuta empática é um pilar fundamental da intimidade emocional.

O terceiro cavaleiro do apocalipse é o Desprezo:

Ele aparece através de sarcasmo, ironia, humilhação ou desvalorização do sentimento do outro. Este é um dos padrões mais corrosivos, pois gera distanciamento, fere a autoestima e compromete profundamente a segurança emocional na relação. E facilmente desencadeia o quarto padrão:

O Evitamento:

Também conhecido como afastamento emocional, caracteriza-se pelo silêncio, pela fuga ao diálogo e pelo distanciamento afetivo.
Quando um dos parceiros está inacessível, a comunicação torna-se impossível e o problema permanece sem resolução.

Muitos casais convivem durante anos com um “elefante branco” no meio da sala, ou seja, um tema sensível que ambos sabem que existe, mas que nenhum se dispõe a abordar.

Fala-se sobre a rotina, os filhos, as férias… mas evita-se falar do que realmente precisa ser conversado.

E aquilo que evitamos, permanece.
Uma história que não é enfrentada é uma história que continua a repetir-se.

Mas a boa notícia é que todos estes padrões podem ser transformados!

  • A Crítica pode dar lugar à expressão de pedidos claros.
  • A Defensividade pode abrir espaço à responsabilidade emocional.
  • O Desprezo pode ser substituído por respeito e empatia.
  • O Evitamento pode tornar-se uma pausa consciente e um diálogo seguro.

Relacionar-se é um aprendizado contínuo.
Com apoio terapêutico, é possível transformar conflitos em oportunidades de aproximação e crescimento.

Cuidar do relacionamento é também cuidar da saúde emocional de cada um.

Referência: Gottman, J. M. (1994). Why Marriages Succeed or Fail: And How You Can Make Yours Last. New York: Simon & Schuster.

Quem EU sou para além dos papéis que desempenho?

Muitas mulheres cresceram a ouvir que precisam de ser fortes, capazes, dedicadas, presentes… e, ao mesmo tempo, equilibradas em todas as áreas da vida.

  • Ser boa profissional.
  • Ser boa mãe.
  • Ser boa companheira.
  • Ser boa filha.
  • Cuidar dos outros.
  • Cuidar da casa.
  • Cuidar das emoções de todos à volta.

E, no meio de tantas expectativas, muitas vezes surge a pergunta: Onde fico EU no meio de tudo isto?

Durante muito tempo, o papel da mulher na sociedade foi definido a partir do olhar dos outros — da cultura, da família, das tradições e das expectativas sociais. Mas muitas vezes esquecemos que, por trás destes papéis, existe uma pessoa com desejos, limites, necessidades emocionais e sonhos próprios.
Na clínica, é muito comum ouvir mulheres que carregam uma sensação constante de insuficiência.

Sentem que estão sempre em falta em algum lugar.
Se dedicam mais ao trabalho, sentem culpa por não estarem tão presentes em casa.

Se priorizam a família, questionam se estão a abdicar demasiado de si próprias.

Se escolhem cuidar de si, surge o medo de serem vistas como egoístas.
Mas muitas vezes o que está por trás desta sensação não é incapacidade, mas um sentimento que emerge do excesso de exigência.

A mulher foi historicamente ensinada a cuidar, a adaptar-se, a colocar as necessidades dos outros à frente das suas. E quando tenta mudar este padrão, pode sentir-se perdida, como se estivesse a quebrar uma regra pré-estabelecida de forma intrínseca.

Contudo, existe uma diferença importante entre cuidar dos outros e esquecer-se de si mesma.

Cuidar é uma das formas de demonstrar amor, assim como há outras.

Anular-se para corresponder a expectativas externas pode tornar-se um caminho silencioso para o esgotamento emocional.

Talvez a pergunta não seja “qual deve ser o papel da mulher na sociedade?”, mas sim:

  • QUEM É esta mulher para além dos papéis que ocupa?
  • Porque nenhuma mulher é apenas mãe.
  • Ou apenas profissional.
  • Ou apenas esposa.
  • Ou apenas filha.

Cada mulher é um universo de experiências, emoções, escolhas e processos de autoconhecimento.

E talvez uma das transformações mais importantes da nossa época seja justamente esta: permitir que cada mulher possa construir o seu próprio caminho, sem precisar caber em modelos rígidos que não refletem quem ela realmente é.

Quando uma mulher se permite escutar as suas emoções, reconhecer os seus limites e respeitar os seus desejos, algo muito importante acontece: ela deixa de viver apenas para corresponder às expectativas dos outros e começa, finalmente, a viver com mais consciência daquilo que quer e sente.
E isso não a torna menos presente para os outros.
Pelo contrário.

Uma mulher que se conhece, que se respeita e que cuida da sua saúde emocional tem muito mais capacidade de construir relações mais saudáveis, mais autênticas e mais equilibradas. Ao reconhecer o seu próprio limite, também o consegue impor.
Porque, no fundo, o verdadeiro lugar da mulher na sociedade não deveria ser definido por imposições externas, mas sim pela liberdade de ser como quer, e, de estar onde ela quiser.
E talvez o maior ato de coragem seja justamente esse: Não viver apenas para cumprir papéis, mas para construir uma vida que faça sentido para si própria.

Reconhecer isto também faz parte do processo de autoconhecimento e crescimento emocional — algo que a psicologia procura estimular ao ajudar as pessoas a compreenderem melhor as suas emoções e os seus próprios caminhos.