O suicídio e o sentimento de desamparo: quando a dor parece não ter saída

Em determinados momentos de sofrimento psíquico, aquilo que é vivido como uma realidade definitiva pode corresponder, na verdade, a um estado interno profundamente marcado pela crise, pelo desamparo e pela impossibilidade momentânea de imaginar outras alternativas.

“O suicídio é uma resposta definitiva para um problema transitório.”

No entanto, falar de suicídio exige cuidado. Nem todo o sofrimento é transitório, nem todas as circunstâncias que conduzem a uma crise desaparecem simplesmente com o tempo. Esta frase não deve, por isso, ser entendida como uma banalização da dor, mas como um convite a pensar sobre algo que frequentemente acontece durante uma crise suicida: a redução do campo de possibilidades psíquicas.

Quando o sofrimento se torna insuportável, o sujeito pode deixar de conseguir imaginar um futuro diferente daquele que está a viver no presente. E é precisamente por isso que o sentimento de desamparo pode contribuir para uma compreensão mais alargada deste tema tão sensível. O desamparo não é, portanto, apenas uma sensação de estar sozinho. É uma experiência mais profunda de não conseguir, pelos próprios meios, transformar uma situação que provoca sofrimento.

Ao longo do desenvolvimento, o sujeito vai adquirindo recursos internos e externos que lhe permitem lidar com a angústia, com a perda, com a frustração e com a adversidade.  A capacidade de pensar, simbolizar, pedir ajuda, estabelecer relações e atribuir significado às experiências constitui-se, em parte, a partir das primeiras experiências de dependência e relação com o Outro/cuidador.

Contudo, determinadas situações podem reativar, na vida adulta, uma vivência intensa de desamparo.
Uma perda significativa, uma separação, uma experiência de rejeição, violência, humilhação, fracasso, doença, isolamento ou uma crise relacional podem ultrapassar, temporariamente, os recursos psíquicos disponíveis para lidar com aquilo que está a acontecer. Nesses momentos, a pessoa pode não sentir simplesmente que está a atravessar uma dificuldade.

Pode sentir que não existe saída.

Quando o sofrimento deixa de poder ser pensado

Uma das questões importantes para a compreensão do suicídio sob a luz da psicanálise está relacionada com a possibilidade de transformar a experiência emocional em algo que possa ser pensado e simbolizado.

Enquanto conseguimos falar sobre aquilo que sentimos, construir significados, reconhecer ambivalências e imaginar diferentes possibilidades, existe algum espaço psíquico entre a dor e a ação.
Mas, em situações de sofrimento extremo, esse espaço pode estreitar-se.

A experiência pode tornar-se predominantemente concreta e surgem pensamentos frequentes como:

  • “isto nunca vai mudar”
  • “não aguento mais”
  • “não há solução”
  • “ninguém pode ajudar-me”

Não se trata necessariamente de uma decisão racional no sentido habitual do termo. Trata-se, muitas vezes, de uma experiência subjetiva em que a capacidade de construir mentalmente alternativas se encontra profundamente comprometida.
O futuro deixa de ser experimentado como um espaço de possibilidades.

A dor do presente passa a ocupar todo o horizonte.

É neste sentido que podemos compreender a ideia de que o suicídio pode surgir como uma tentativa de pôr fim a um sofrimento que, naquele momento, parece não poder ser transformado em outra coisa.

Entre o desejo de morrer e o desejo de deixar de sofrer

A ideação suicida pode envolver diferentes significados psíquicos e pode coexistir com ambivalência. Uma pessoa pode desejar simultaneamente desaparecer daquela situação e continuar a existir; pode desejar que a dor termine sem que exista uma representação clara da morte enquanto fim da própria existência.

Por isso, ouvir alguém falar sobre suicídio não significa procurar imediatamente uma explicação única para aquilo que está a acontecer. Significa criar condições para que a experiência possa ser verbalizada e compreendida, sem julgamento.
A psicanálise oferece ferramentas para pensar a singularidade de cada sujeito, a sua história, os seus vínculos, as suas perdas, os seus conflitos e a forma particular como constrói significado perante aquilo que vive.
Mas compreender não significa diminuir o risco.
Perante a ideação suicida ou risco de suicídio, a avaliação e intervenção adequadas são fundamentais.

O outro como possibilidade perante o desamparo

Se o desamparo implica, entre outras dimensões, a experiência de não conseguir sozinho transformar aquilo que provoca sofrimento, então a presença do outro pode adquirir uma importância particular.
Não necessariamente porque o outro tenha uma solução imediata.
Mas porque pode ajudar a tornar pensável aquilo que, sozinho, parece impossível de pensar.
A relação terapêutica pode constituir um espaço onde a experiência deixa de existir apenas como ato ou urgência e pode começar a adquirir palavras, representações e significados.

Por vezes, aquilo que inicialmente aparece como “quero morrer” precisa de ser escutado na sua complexidade.
Pode existir uma perda que ainda não foi elaborada.
Uma raiva que não encontrou expressão.
Uma culpa que se tornou insuportável.
Uma experiência de rejeição.
Uma sensação de não ter lugar.
Uma solidão profunda.
Uma dor para a qual ainda não encontrou lugar na linguagem.

A função da psicoterapia não é simplesmente convencer alguém de que “a vida vale a pena”. É poder acompanhar a pessoa na construção de um espaço psíquico onde aquilo que hoje parece impossível possa, progressivamente, tornar-se uma realidade.
Aquilo que hoje parece absolutamente sem saída pode ser vivido de outra forma quando existem tempo, relação, tratamento, suporte e condições para que o sofrimento possa ser elaborado.

Uma crise pode alterar radicalmente a perceção do futuro.
E, quando o futuro deixa de poder ser imaginado, a morte pode surgir, paradoxalmente, como a única certeza possível.
A prevenção do suicídio perpassa também por devolver alguma abertura a esse futuro.
Não através de respostas simplistas, mas através da presença, da escuta, da intervenção clínica e da possibilidade da pessoa não permanecer sozinha perante aquilo que, naquele momento, não consegue suportar.

Falar pode ser o primeiro movimento contra o isolamento.
E pedir ajuda não significa que a dor seja pequena.
Significa reconhecer que não é necessário enfrentá-la sozinho.

IMPORTANTE
Se estiver perante pensamentos de suicídio, automutilação ou receio de poder fazer mal a si próprio, procure ajuda imediatamente e não permaneça sozinho.

Em Portugal, perante uma situação de emergência, contacte o 112.

Ou ligue para a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio – 1411

Pode também recorrer a um serviço de urgência ou contactar um profissional de saúde.